O ano começou com diversas promessas dentro do mercado de startups, tanto com as aberturas de mercado de startups unicórnios (no mercado internacional) como decisões relacionadas ao 5G (a nível local).

Além das expectativas que não foram cumpridas, 2019 trouxe outras questões inesperadas para o público, como questões de privacidade e problemas para restabelecimento de empresas.

Abaixo, apresentamos alguns dos temas corporativos que mais se destacaram nos últimos doze meses. Enquanto alguns já foram solucionados, outros voltarão a exigir da nossa atenção neste 2020 que logo mais se inicia. Confira:

Falha de privacidade no FaceTime

O ano já se iniciou com uma brecha de privacidade em nada mais e nada menos do que no FaceTime, aplicativo de conversas usado pela Apple para os seus dispositivos móveis. Uma atualização lançada em outubro de 2018 apresentava uma falha que permitia a uma pessoa ligar para um contato na agenda a já ter o microfone do outro lado ativado mesmo que a chamada não tivesse sido atendida. 

Esse erro, que acontecia especificamente em chamadas de vídeo para grupos, foi anunciado no final de janeiro. A Apple desabilitou o recurso de chamadas para mais de uma pessoa e corrigiu a falha no início de fevereiro. 

Porém, surgiu outro problema dentro do apo que não deixava incluir mais pessoas dentro de uma ligação individual, transformando-a em chamada de grupo.  Ainda em fevereiro esse erro de funcionamento foi corrigido pela empresa de Cupertino. 

Empresas ouvem diálogos de usuários com assistentes de voz

Uma pergunta que sempre rondou a cabeça de donos e donas de alto-falantes inteligentes: “será que é possível alguém da empresa escutar o que eu falo com a assistente de voz?”. Nesse ano, tivemos a resposta positiva. 

Em abril, a Bloomberg publicou uma reportagem apresentando uma área da Amazon, totalmente separada da empresa, dedicada a ouvir e transcrever trechos de gravações, para “alimentar” a inteligência artificial tanto para reconhecer novos sotaques como para dar respostas mais precisas para as perguntas feitas. 

Nos outros meses, Apple, Facebook, Google e Microsoft admitiram que realizam a mesma prática para seus sistemas de IA, ouvindo e transcrevendo trechos de gravações. Apesar de todas as empresas reforçarem que o ambiente no qual a gravação é ouvida foi preparado para proteger a identidade dos usuários, essa confirmação aumentou um pouco a desconfiança das pessoas com relação ao tema privacidade. 

Outro ponto levantado com essa notícia foi o fato de que, ao contrário do que o senso prega, as tecnologias de inteligência artificial ainda estão em fases muito rudimentares e precisam bastante da intervenção humana para trazerem bons resultados. 

A promessa não cumprida que foi o IPO da Uber

Se houve uma empresa que começou 2019 cheia de expectativas, foi a Uber. O então unicórnio mais valioso do planeta tinha altas expectativas com a sua ida ao mercado de ações e tentou chegar a um valuation que ultrapassava os US$ 120 bilhões.  

Porém, toda a animação pré-IPO não se converteu na rentabilidade esperada: a empresa conseguiu um market cap de US$ 82 bilhões e o preço por ação (US$ 45) ficou abaixo dos US$ 50 dólares esperados.  

E os resultados financeiros também não agradaram: em agosto, a companhia anunciou prejuízo de US$ 5 bilhões e informou que ainda precisará de injeções de capital externas no curto e médio prazo antes de se tornar auto-sustentável. 

Os resultados da companhia acabaram  servindo de “inspiração” para outras startups, que preferiram adiar seus IPOs para se estruturarem melhor antes desse processo. 

A multa de “apenas” 5 bilhões para o Facebook

Após todo o escândalo da Cambridge Analytica, empresa que usou a plataforma do Facebook para levantar dados de 87 milhões de usuários, surgiram diversas denúncias sobre como a rede social utilizava a base de dados disponível de formas que colocavam em risco a privacidade das pessoas. 

Por conta de todas essas questões a Federal Trade Commission, que avalia questões regulatórios dentro dos EUA, informou que multaria a companhia de Mark Zuckerberg. E a multa saiu: cerca de US$ 5 bilhões.   

Mas o valor não agradou muitas pessoas, que acharam a multa “branda” para a empresa, que no mesmo trimestre alcançou uma receita de quase US$ 17 bilhões. Na opinião dos críticos, essas companhias precisam receber multas que de fato prejudiquem o lucro de seus principais acionistas pois só dessa forma tomarão medidas mais rígidas para assegurarem a privacidade de quem utiliza o serviço. 

A “novela” do Galaxy Fold

O ano começou com uma disputa silenciosa por parte de algumas
fabricantes de smartphones: quem seria a primeira a lançar o tão
aguardado aparelho dobrável, que traria um respiro a um mercado de
dispositivos, que passou pelos últimos anos sem novidades no layout de
aparelhos. 

A premiação de pioneira foi para a Samsung, que apresentou em abril o Galaxy Fold, seu smartphone com tela dupla e imagens de alta resolução. Não dá para negar: a estreia impressionou. Assim que o aparelho foi apresentado ao mundo, jornalistas americanos receberam uma unidade para testes. E foi aí que os problemas surgiram. 

Muitas das unidades apresentarem defeitos já no segundo dia de testes, seja uma tela quebrada, pixels “mortos” ou mesmo a retirada de uma espécie de capa que cobria a tela. Apesar de ser possível removê-la, a Samsung informou que ela era parte da versão final do aparelho. Ao final do dia, a opinião geral era de que o produto (vendido a US$ 1999) ainda não estava pronto para o mercado. 

A Samsung então postergou a data de lançamento ao mercado, cancelou a pré-venda e passou os meses seguintes trabalhando em uma versão 2.0 do smartphone, lançada em outubro. A crise foi a segunda vivida pela empresa em um espaço menor de cinco anos: vale lembrar do caso do Galaxy Note 7, cuja bateira de alguns dos aparelhos da linha explodiram. 

O início polêmico da criptomoeda Libra

Anunciada em junho, a criptomoeda Libra, parte de uma estratégia financeira maior do Facebook, chegou com a promessa de ser a solução que combinava as novidades de segurança e agilidade dos digital assets com as regulações e comodidades das moedas físicas. 

O projeto foi iniciado com parcerias de peso dentro do mercado financeiro, como Mastercard, PayPal e Mercado Pago.  Mas, ao longo dos meses, tomou força o então boato de que essas companhias estavam reconsiderando a permanência no projeto, por sofrerem pressões regulatórias de órgãos que controlam o sistema bancário e ainda não terem respostas do Facebook para muitas das perguntas feitas.   

A suspeita de uma retirada foi confirmada quando o PayPal anunciou sua saída do projeto, argumentando que iria se dedicar a iniciativa internas e que desejava sucesso à construção da criptomoeda. Na semana seguinte, Mastercard, eBay, PayPal e Mercado Pago também informaram que deixavam o projeto, mas não descartavam a possibilidade de retornar em um momento futuro. 

Além dessa debandada demonstrar que a criação de uma criptomoeda exige muito até mesmo de empresas gigantes, também levantou-se
o questionamento (ainda não respondido) sobre o quão válido é uma
empresa privada do tamanho do Facebook criar e operar um recurso
financeiro que tem escala para transacionar bilhões de dólares. 

A relação das gig companies com seus parceiros

Apesar de não surgir neste ano, o mercado de entregas de alimentos parece ter se consolidado em 2019 dentro da rotina de muitas pessoas. Com isso, ganhou destaque a figura do “parceiro”, seja o motorista ou entregador, que utiliza o app de empresas como Uber, Rappi e iFood para ganhar dinheiro fazendo entregas ou corridas. 

Dois aspectos ainda irão gerar muitos debates nos próximos anos: o primeiro fala sobre a exigência física requerida por esses profissionais, em especial o que usam biciletas para realizarem os transportes.  

Como as reportagens publicadas pelo Estadão e BBC já mostraram, a normalidade para esse público é percorrer mais de 20 quilômetros em jornadas que ultrapassam com folga as 10 horas diárias.  Como os horários de pico costumam ser o almoço e jantar, muitos acabaram dobrando a jornada para não perderem entregas, indo para casa às vezes até uma vez a cada dois dias. 

Outro ponto delicado é o quão responsável essas empresas são pela saúde e bem-estar desses parceiros. Esse tema surgiu com mais força em julho, após a morte de um entregador que trabalhava para o app Rappi. 

Thiago de Jesus Dias faleceu após passar mal e sofrer um AVC ao fazer uma entrega para o aplicativo de delivery de comida. Vendo o entregador claramente mal, as pessoas que fizeram o pedido ligaram para o Rappi a fim de obter alguma orientação, mas a única instrução passada pela atendente seria pedir para cancelar a corrida para não diminuir a pontuação de Dias 

Após o incidente, algumas empresas estão tomando medidas para fornecer algum tipo de garantia aos parceiros. Como o iFood, que anunciou um pacote de seguros que cobre acidentes ocorridos durante a entrega de algum pedido. Mas a tendência é que aumentem as demandas pelo estabelecimento de vínculos empregatícios. 

Os problemas enfrentados pela Oi

Desde que entrou em recuperação judicial no ano de 2016, a Oi se empenha para reestruturar suas operações e sair do vermelho. Mas seus principais problemas este ano ocorreram muito mais dentro nos setores de liderança do que na operação em si. 

Durante boa parte do ano o GoldenTree, maior acionista da operadora, pressionou a liderança para realizar a substituição do presidente Eurico Teles, alegando que a gestão precisa ser mudada para gerar mais transparência e agilidade no processo de recuperação. Do mercado, a companhia trouxe Rodrigo Abreu, que assumirá a função a partir de janeiro. 

Em paralelo, a empresa teve que lidar com diversos rumores de venda, como a da Huawei, negado pela companhia chinesa, e uma possível compra conjunta entre Vivo, Tim e Claro, na qual as empresas dividiriam entre si os ativos da marca. Em paralelo, a empresa buscava negociar ativos como participações em outras empresas ou venda de divisões menos rentáveis (como a telefonia móvel) para gerar caixa.  

Ainda em dezembro, a empresa se viu de volta aos noticiários após a Operação Lava Jato anunciar uma nova fase na qual avaliaria se a empresa deu algum tipo de incentivo financeiro para a família do ex-presidente Lula. 

A montanha-russa que foi 2019 para o WeWork

Assim como a Uber, a WeWork também iniciou o ano com grandes expectativas para um IPO bem-sucedido. Mas que a história da empresa foi ainda mais supreendente (só que de uma forma não muito positiva) do que a da companhia de corridas. 

A companhia apresentou à SEC (Comissão de Valores Mobiliários, órgão que controla movimentações financeiras nos EUA) a documentação para iniciar seu IPO. E, de acordo com as informações registradas, ela necessitava de muito investimento externo e pouco lucro. Sem falar nos negócios paralelos (como o de educação e moradia), que consumiam parte do caixa. 

Esses resultados geraram uma desconfiança tão grande no mercado que Adam Neumann, fundador e até então CEO da WeWork, deixou o cargo para que o SoftBank, principal investidor da marca, assumisse o controle das operações  

Em novembro, a companhia anunciou a demissão de milhares de funcionários e a venda ou fechamento de negócios paralelos, a fim de otimizar a receita e provar ao mercado que é capaz de se manter. Um cenário completamente diferente do que o imaginado em janeiro. 

Vazamentos no setor de telefonia

O último trimestre de 2019 trouxe duas notícias importantes sobre vazamentos ocorridos dentro do Brasil.  

O primeiro apresentava uma brecha de segurança no site Minha Claro,
que deixava expostas informações de mais de 8 milhões de clientes da
empresa. Já o segundo, com moldes parecidos, ocorreu no portal Meu Vivo, com capacidade para atingir mais de 24 milhões de clientes. 

Os vazamentos funcionaram como um lembrete para que as empresas revejam seus processos e se adequem à LGPD, que entrará em vigor em agosto de 2020. Com ela ativa, casos de vazamentos serão aplicáveis de multas na casa de milhões. 

Adiamento do edital e leilão do 5G

Para que a implementação da tecnologia 5G comece no Brasil, é necessário que o governo abra um edital apresentando as frequências e divisões territoriais para, depois, iniciar um leilão para as operadoras interessadas.   

Previsto para acontecer ainda em 2020 e com prazos até apresentados, o processo acabou direcionado para 2021 por conta do pedido dos conselheiros da Anatel para revisitar alguns pontos da proposta apresentada originalmente. Com isso, é provável que o processo de instalação do 5G dentro do Brasil acabe demorando mais do que o visto em outros países. 

*Com informações da Cnet 

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